Teu amigo mais semelhante instiga:
   - "Eu nunca joguei futebol direito, nunca tive uma banda", nunca fiz isso ou aquilo, "mas eu fiz algumas coisas!"
   Crueldade! Entremeadas a essas declarações, que são realmente afirmações de que tenta mais do que qualquer coisa viver e ser livre de desejos, sentimentos, movimentos, (específicos todos esses!), faz compreender que não pode facilitar para que tu faça algo da vida ou que sinta prazer e certeza para insistir enquanto angustia e abomina toda e qualquer mostra de vida (a falta dela, sinceramente).
   E então começa um longo período em que tu tem de se libertar! De um modo que requer suar pelo maior (e pior) esforço, sangrar as mais dolorosas internalidades, externalidades também.
   Mal desconfiava ele que foi tua prisão a responsável pela distância entre os dois - e esta, sempre a facilitadora da aproximação e fascinação... mal sabe ele do teu lento e efetivo (afetivo) envolvimento. 
   Por tudo, ele não compreende; és tu a maior responsável pela descrença dele quanto ao teu sentimento. És a maior responsável pela incrível semelhança entre suas almas; responsável por certeza e engano se confundirem nestas mentes.
   Ele é peça chave da tua libertação. Teus lances de fuga e aproximação resultaram das tuas alucinações (como explicar melhor?), movimentos que te esculpiram demasiadamente estranha!
   Ele te fez buscar a liberdade de ti mesma, desvencilhar-se das amarras de toda ordem, ser capaz de carregar a própria vida e dizer:
   - ... eu fiz algumas coisas.
   Agora, finalmente as mentes gritam: "não, não foi suficiente."
   E todo o significado possível não existe; tens de arranjar outro. E sempre parece tarde demais.


Guardiã
Imagem: Google

Questionamentos

O que faz um Ser, desse tipo raro e verdadeiramente humano, demasiadamente, sentir saudade, desejo de regressar, de estar, de pertencer a algum (algum, qualquer!!!) lugar? Questionamento dolorosamente exaustivo(!): intensifica a falta, a carência, o desamparo, a solidão da alma que queria paz.

Compreende a angústia que assalta? Acuda e aplaca a dor que não tem nome nem localização. Colabora para o desafogo...

Guardiã
Há uma inconstância na tranquilidade, que é também uma certeza. Existe a certeza capenga dos bonecos de madeira e articulação frágil que desmontam sobre si mesmos a qualquer toque não previamente calculado por suas sonoras mentes.
O cultivo da fascinação por caixas de Pandora mantém o encantamento sem prazo e o seu zelo, pelo tempo todo em que ninguém revelar seu conteúdo. Conservá-la lacrada - mesmo que o lacre seja o respeito e a crença de que ali há algo apenas sentimentalmente depositado - tem de ser a tarefa mais fácil e mais estimulante para que se permaneça, por tempo indeterminado...
Conteúdos revelados de seu sagrado perdem o mistério neste mundo; e difícil é ter a certeza para continuar ao lado de uma caixa que exige seu conteúdo constantemente reposto.
A tranquilidade é o mistério!

Guardiã

Gigantes

Com fala em prosódia de quem dialoga com a maior das certezas e tranquilidade, voz firme, a menina explica à mãe que "os gigantes são enormes":
- Sim, os olhos são do tamanho de árvores! - afirma convicta; e faz uma pausa no discurso, qual provoca apropriada a um momento de reflexão.
- E os pés do tamanho de carros! - continua, definindo as proporções.
E o incrível mundo de gigantes, criado e alimentado pela menina tão miúda, e que dentro dele não se perde, continua sem que eu possa acompanhar. Meus ouvidos já não alcançam sua voz. Ou não alcanço e não compreendo suas proporções?
Junto à mãe, ela segue articulando o (macro)território. No entanto, sem que eu possa escutar sequer uma vez a voz daquela. À mãe deve ser restrito o acesso aos domínios da pequena, não consegue ser gigante: se perde, não acompanha os passos e aquele mundo é demasiadamente grande para seus pés de tamanho convencional.

Guardiã
(01.03.2011)